O Presépio

Na década de 40, aconteceu que o pai de Maguetas vinha passando, há muito tempo, por uma fase difícil de desemprego. A situação estava complicada para a família. Havia terminado a segunda guerra e as consequências estavam presentes. Então o seu pai conseguiu arranjar trabalho na igreja matriz, como zelador (sacristão).

Estava chegando a Natal de 1949. A igreja preparou um enorme presépio com pequenas figuras que se movimentavam. O menino, quando saia do Grupo Escolar Domingues da Silva, onde estava cursando o 1° ano, ia direto à igreja para conversar com seu pai e admirar o presépio. A Igreja Matriz de São Sebastião era parada obrigatória na ida e volta da escola. Como se já não houvesse um bom motivo para o menino estar a toda hora na igreja, agora se juntava mais um para que ele marcasse presença na Casa de Deus, com seus santos em tamanho natural colocados em pedestais no meio de colunas góticas estilo que foi escolhido para o prédio da nova matriz.

O presépio, montado por um artesão chamado Ariali, funcionava com centenas de figuras que se movimentavam por cenários os mais fiéis possíveis à Terra Santa. O menino ficava horas parado ali, observando as figuras que tiravam água do poço, serravam madeira. Ele ficava sonhando com a possibilidade de ter um negocio desses em casa.

Seu pai, zelador da igreja, ficava preocupado pelo fato de o menino ficar tanto tempo ali admirando a luz que entrava pelos vitrais coloridos e incidia sobre as figuras do presépio. Maguetas sentia-se bem de estar ali, vendo aquela maravilha, no frescor da grande nave, pois lá fora, como dizia o Padre, fazia um calor infernal.

Um dia, voltando da escola, deu uma pausa para descanso sob a sombra da grande paineira que ficava em frente à enorme igreja. O fato de ele ser pequeno lhe dava a impressão de que a torre inacabada penetrava nas nuvens. Alias, seu pai já lhe havia ensinado a badalar os sinos, em cujas cordas o menino precisava pendurar-se para poder toca-los.

No pátio da igreja, havia uns tambores de aço cheios de água para assentar a cal virgem, necessário para o acabamento da parte externa da igreja Larvas de mosquito nadavam naquela água límpida que refletia um céu muito azul com nuvens brancas. Quando passava por ali sentindo tonturas pelo sol quente, Maguetas metia a cabeça dentro de um tambor e molhava seus cabelos muito loiros que lhe davam o apelido de alemão batata. Depois de passar algum tempo embaixo da grande paineira, ele subiu correndo à escadaria e entrou na matriz. Dentro da nave da igreja, acomodou-se num banco e ficou imaginando como deveria ser o paraíso, já que aquele templo é tido como um caminho para o Éden.

Sozinho dentro da igreja, pois seu pai estava cuidando dos paramentos na sacristia, ele encostou-se no banco que separava o presépio do corredor e observou pela milésima vez a luz que atravessava os vitrais decorados. O facho de luz se concentrava bem em cima da manjedoura. Era uma visão das mais belas e ele jamais a esqueceria. Alguns dias atrás seu pai, já lhe havia perguntado se ele não se cansava de ficar olhando tanto para o presépio. O menino já havia deixado bem claro que gostaria de ter um só para si e que iria fazer um pedido para o Papai Noel. Seu pai o havia desencantado da ideia, dizendo que o Papai Noel não poderia atender a seu pedido, pois não tinha dinheiro para tanto.

Enquanto Maguetas divagava nesses pensamentos, seus colegas de escola brincavam lá fora da igreja, nos tambores de água. Mas ele não queria brincar havia coisas mais importantes para fazer rezar e pensar na possibilidade de ter o seu próprio presépio.

Admirando extasiado o presépio e a ornamentação da igreja, tomou a decisão de obter informações. Levantando-se lentamente de suas orações foi até à sacristia perguntar a seu pai como eram feitas aquelas figuras.

– Pai! Queria lhe fazer uma pergunta!
– Sim, meu filho!
– Quem faz esses santos que estão no presépio e que material é usado?
– Seu pai calmamente explicou ao pequeno:
_São artistas ou artesãos. As da frente são de madeira, mas as pequenas do fundo são de argila, ou melhor, um barro quase branco que se usa também para fazer moringas e potes. Por quê? Você quer ser escultor?

– Animado, o menino respondeu:
_Então as pessoas estão copiando Deus, que fez Adão com barro, hem? Eu só quero fazer um presépio, bem pequeno, e vou fazer!

Satisfeito com as informações obtidas, o pequeno despediu-se do pai deu mais uma olhada no presépio e seguiu para casa com o caderno todo sujo e amassado. Descalço, chutando a areia quente pelo sol de dezembro, ao chegar a casa, levou um pequeno sermão da mãe, dona Maria, pelo atraso. Enquanto comia alguma coisa, disfarçadamente perguntou:

_Mãe? A senhora sabe onde se pode encontrar barro de fazer moringa?

Ela lhe indicou o lugar que fazia parte de uma olaria, mas preveniu-lhe que não deveria se aventurar sozinho por ali, pois provavelmente havia cobras no local.

Mas tinha um vizinho que trabalhava em uma olaria. O menino contou a esse vizinho sobre seu projeto, e prontamente o velhinho lhe trouxe uma grande bola de argila. O artesão ensinou ao menino que mantivesse a bola de argila sempre com um pano molhado. para que a mesma não secasse até que as figuras estivessem prontas.

Logo o menino descobriu de onde o barro era retirado e ele mesmo ia pegar no barranco do riacho perto da olaria.

Descobriu que não era tão dificil trabalhar a argila e as pessoas não acreditavam que ele tivesse tanta habilidade para fazer figuras tão perfeitas E assim, nasceu um artista O pequeno presépio ficou pronto e foi montado sobre uma folha de zinco. Ficou perfeito! Uma pessoa de posses viu e quis comprar o primeiro trabalho do menino. Resultado da venda muitas moedas, rapidamente transformadas em gostosos doces e sorvetes.

E o menino achou magnifico esse negócio de fazer santos de barro.

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